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Service Design · August 10, 2026

Reduzir Atrito em Jornadas de Serviços Públicos: Por Onde Começar

Digitalizar sem redesenhar escolhas só move o atrito para uma tela. Veja como distinguir complexidade genuína de sludge e mapear jornadas do cidadão antes de tentar corrigi-las.

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Camila Barbosa
9 min read
Reduzir Atrito em Jornadas de Serviços Públicos: Por Onde Começar
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Uma mulher de 68 anos entra pela terceira vez no mesmo posto de atendimento em um mês. Da primeira vez, faltou um documento que ninguém havia mencionado antes. Da segunda, o sistema caiu no meio do cadastro e ela perdeu a senha. Da terceira, descobre que o formulário que preencheu online não chegou ao setor certo porque exigia um upload que o portal não avisava ser obrigatório. Nenhum funcionário foi rude. Nenhuma etapa era, isoladamente, absurda. E ainda assim ela gastou três manhãs de trabalho para obter um benefício ao qual já tinha direito.

Isso não é falta de eficiência pontual — é atrito acumulado, e a maior parte dele foi desenhada, ainda que sem intenção maliciosa. A tese deste artigo é direta: reduzir atrito em jornadas de serviços públicos não é um projeto de digitalização, é um projeto de redesenho de escolhas. Trocar o guichê por um aplicativo sem revisar a arquitetura de decisões, os padrões (defaults) e as etapas redundantes apenas move o mesmo atrito para uma tela — e às vezes cria atrito novo para quem não tem acesso digital fácil. O ponto de partida certo não é "qual canal", mas "qual etapa pode ser eliminada, combinada ou assumida pelo próprio Estado, em vez de exigida do cidadão".

Por que o atrito se acumula tanto nos serviços públicos?

O atrito se acumula porque cada exigência nasceu de uma boa razão isolada — combater fraude, cumprir uma norma, satisfazer um auditor — mas ninguém soma o custo total dessas exigências para quem está do outro lado do balcão. Um formulário pede comprovante de residência porque um departamento jurídico exigiu isso em algum momento; outro pede reconhecimento de firma porque um processo antigo de décadas atrás nunca foi revisto. Isoladamente, cada regra parece razoável. Somadas, formam uma jornada em que o cidadão paga, em tempo e desgaste, o preço da falta de dono único sobre a experiência ponta a ponta.

Esse é o padrão que qualquer diagnóstico de desenho de processos revela rapidamente: regras que fazem sentido dentro de um departamento, mas empilham esforço quando vistas pela sequência real que o cidadão percorre. A causa raiz raramente é um funcionário desmotivado — é a ausência de alguém responsável pela jornada completa, e não apenas pela etapa que seu setor controla.

Atrito ou sludge? A diferença que muda a estratégia

Nem todo atrito é igual, e confundir os dois tipos leva a soluções erradas. O economista comportamental Richard Thaler distingue, em seu trabalho sobre arquitetura de escolha, entre o atrito que resulta de complexidade genuína e o que ele e Cass Sunstein chamam de sludge: fricção excessiva, muitas vezes deliberada ou negligente, que dificulta o acesso a algo que a própria organização deveria querer entregar. Sunstein detalhou o conceito no livro Sludge: What Stops Us from Getting Things Done and What to Do about It (MIT Press, 2021), argumentando que formulários longos, prazos apertados e exigências de comparecimento presencial funcionam, na prática, como um imposto invisível sobre quem tem menos tempo, menos letramento digital ou menos capital social.

A distinção importa porque a resposta certa muda conforme a causa. Complexidade genuína — como verificar identidade em um benefício de alto valor — pede desenho cuidadoso, não eliminação. Sludge pede remoção, ponto final. Um exemplo prático: exigir que o cidadão comprove três vezes, em três órgãos diferentes, uma informação que o Estado já possui (endereço, renda, composição familiar) não protege ninguém contra fraude adicional — apenas transfere o custo de integração de sistemas do governo para o cidadão. É sludge disfarçado de rigor.

Cada exigência redundante que o Estado impõe ao cidadão é, na prática, uma decisão de que o tempo dele vale menos do que o tempo economizado pela burocracia.

Como mapear o atrito antes de tentar removê-lo?

Reduzir atrito sem mapear a jornada primeiro é like cortar cabos ao acaso na esperança de melhorar a fiação. O diagnóstico precisa vir antes da correção, e ele segue uma sequência que funciona em qualquer serviço público — de emissão de documentos a marcação de exames em saúde pública.

  1. Reconstrua a jornada como o cidadão realmente a vive, não como o organograma a descreve — incluindo etapas informais, como ligações para "descobrir onde está o processo" ou idas a um posto só para tirar uma dúvida.
  2. Marque cada ponto em que o cidadão precisa fornecer uma informação e verifique se essa informação já existe em outro sistema do governo. Se existir, a exigência é candidata imediata a eliminação.
  3. Identifique os momentos de abandono — onde as pessoas desistem, remarcam ou voltam mais tarde — e trate-os como sinais de que o esforço percebido superou o benefício percebido naquele instante.
  4. Separe atrito estrutural de atrito comportamental. O primeiro exige mudança de sistema ou de norma; o segundo pode ser resolvido com linguagem mais clara, prazos visíveis ou lembretes bem calibrados.
  5. Priorize pelo volume e pela vulnerabilidade — corrija primeiro o atrito que afeta o maior número de pessoas e, dentro desse grupo, dê peso extra a quem tem menos margem para absorver o custo do erro.

Esse exercício de reconstrução é, essencialmente, o que sustenta uma boa prática de mapeamento de jornadas: sem ele, qualquer redesenho vira suposição bem-intencionada. Órgãos que já tentaram esse diagnóstico costumam se surpreender com onde o atrito realmente mora — quase nunca no formulário em si, mas na transição entre um sistema e outro.

Quais atalhos comportamentais reduzem o esforço percebido do cidadão?

Depois de mapear onde o atrito vive, entra a segunda ferramenta: a economia comportamental aplicada ao desenho de escolhas. O Behavioural Insights Team do Reino Unido sintetizou, em seu relatório EAST: Four Simple Ways to Apply Behavioural Insights (2014), quatro alavancas que reduzem esforço percebido sem exigir nenhum investimento pesado em tecnologia: tornar a ação fácil (Easy), atraente (Attractive), social (Social) e no momento certo (Timely). Aplicado a serviços públicos, isso se traduz em decisões concretas:

  • Pré-preencher em vez de perguntar — usar dados que o governo já tem como padrão (default) editável, em vez de campo em branco. É a mesma lógica de arquitetura de escolha que faz a adesão automática superar a inscrição voluntária em quase todo programa social.
  • Reduzir o número de decisões, não só de cliques — cada pergunta extra é uma decisão que consome atenção. Combinar duas etapas em uma reduz a carga cognitiva mesmo que o tempo total mude pouco.
  • Mostrar progresso, não só instruções — uma barra de progresso em um cadastro de múltiplas etapas explora o chamado efeito de gradiente de meta: as pessoas se esforçam mais quando percebem que estão perto do fim.
  • Usar prova social com honestidade — informar que "a maioria das pessoas conclui este pedido em 10 minutos" reduz a ansiedade de quem teme um processo interminável, desde que a informação seja verdadeira.
  • Enviar o lembrete no momento certo, não em lote — um aviso de renovação de documento três dias antes do vencimento previne mais perda de benefício do que um comunicado genérico enviado seis meses antes.

Há também um efeito de aversão à perda que vale explorar com cuidado: quando o cidadão entende que pode perder algo que já considera seu — um subsídio, uma vaga, um agendamento — ele se move mais rápido do que quando apenas lhe é oferecido um ganho equivalente. Comunicar prazos como "seu benefício expira em" tende a gerar mais ação do que "renove para continuar recebendo", mesmo descrevendo a mesma situação. É uma ferramenta poderosa, mas deve ser usada para proteger o cidadão do próprio esquecimento — não para pressioná-lo indevidamente.

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Como digitalizar sem transformar exclusão digital em novo tipo de fila?

A resposta correta é: tratando o canal presencial e o canal assistido como parte do desenho, não como um plano B temporário. O erro mais comum em programas de governo digital é presumir que resolver a jornada online resolve a jornada — e que quem não usa o aplicativo eventualmente vai aprender. Isso ignora que uma parcela relevante da população depende de conectividade instável, alfabetização digital limitada ou simplesmente prefere confirmar informações importantes com uma pessoa.

Um desenho responsável de transformação digital no setor público mantém pelo menos três coisas em paralelo: um canal presencial dignificado (não deteriorado como punição por "não ter migrado"), um canal assistido por telefone ou chat com atendente humano para quem trava no digital, e o canal digital propriamente dito — desenhado como o caminho mais fácil, não o único caminho. O GOV.UK Service Standard, publicado pelo governo britânico como referência para desenho de serviços digitais, estabelece exatamente esse princípio: um serviço só está pronto quando funciona para quem não pode ou não quer usar a internet, e essa exigência está descrita em detalhe no padrão de serviço do GOV.UK.

Isso também exige coragem organizacional: significa admitir que digitalizar sem redesenhar processo é, na melhor das hipóteses, custo neutro, e na pior, um multiplicador de frustração — porque agora o cidadão enfrenta o mesmo número de exigências, só que sem alguém do outro lado do balcão para explicar por que elas existem.

Como saber se a redução de atrito está realmente funcionando?

Medir atrito exige indicadores diferentes dos que o setor privado usa por padrão, porque o objetivo não é maximizar recompra — é maximizar acesso equitativo a um direito. Três métricas costumam contar a história com mais honestidade do que satisfação geral:

  • Taxa de conclusão por etapa, não apenas taxa de conclusão total — ela revela exatamente onde o abandono se concentra.
  • Tempo total até o resultado, incluindo esperas entre etapas, não só o tempo de preenchimento — a maior parte do atrito em serviços públicos mora nos intervalos, não nas telas.
  • Taxa de retrabalho — quantas vezes a mesma pessoa precisa reiniciar, reenviar ou corrigir algo por falha do próprio processo, não por erro do cidadão.

Órgãos que já rodaram esse tipo de diagnóstico frequentemente descobrem que o gargalo mais caro nem sempre é o mais visível — vale a leitura de como identificar os pontos que mais prejudicam o cidadão em Finding the bottlenecks that hurt customers most. Avaliar a maturidade do órgão nesses processos com um instrumento estruturado, como o CX Maturity Assessment, ajuda a situar o ponto de partida antes de prometer prazos de melhoria que a estrutura atual não sustenta.

O que muda quando o atrito deixa de ser tratado como detalhe operacional?

Quando um governo trata a redução de atrito como parte central da entrega de política pública — e não como um projeto de TI paralelo —, a conversa interna muda de "como digitalizamos isso" para "por que ainda exigimos isso". É uma mudança pequena na frase e enorme na prática, porque desloca a pergunta do canal para a legitimidade da exigência em si.

Essa mudança de mentalidade é o que separa reformas superficiais de reformas duradouras. Um portal bonito sobre um processo redundante ainda é um processo redundante — só que agora com uma interface melhor. A confiança do cidadão não nasce da estética do aplicativo; nasce de sentir que o Estado assumiu parte do trabalho que antes empurrava para ele. Há um paralelo direto com o que constrói confiança em serviços digitais governamentais de forma mais ampla, discutido em Dijital Devlet Hizmetlerine Güven Tasarımla Kurulur e em Mereka Bentuk Perkhidmatan Kerajaan Digital yang Dipercayai Rakyat: confiança se constrói etapa por etapa, não em uma campanha de comunicação.

Trabalhar essa mudança também exige tratar o desenho da jornada como disciplina permanente, não projeto de uma vez. Isso é o núcleo do que uma prática madura de desenho de serviços entrega: revisão contínua de processos à luz do comportamento real do cidadão, e não apenas da norma que os originou. Para times de setor público que buscam aprofundar essa mistura entre desenho de serviço e economia comportamental, vale também revisitar os fundamentos em economia comportamental aplicada a políticas públicas.

Nenhum órgão público resolve décadas de atrito acumulado em um único ciclo orçamentário. Mas cada exigência redundante removida, cada default bem escolhido, cada etapa fundida em uma só é uma manhã de trabalho devolvida a alguém que só queria o que já tinha direito de receber. Governos que entendem isso não medem sucesso pela quantidade de serviços digitalizados — medem pela quantidade de vezes que um cidadão não precisou voltar.

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FAQ

Questions we get on this topic

Sludge é o termo usado por Cass Sunstein para descrever fricção excessiva e muitas vezes desnecessária que dificulta o acesso a um serviço que a própria organização deveria querer entregar, como formulários redundantes ou exigências de comparecimento presencial evitáveis.

Atrito genuíno vem de complexidade real, como verificar identidade em um benefício de alto valor, e exige desenho cuidadoso. Sludge é fricção sem função protetora real, como pedir três vezes uma informação que o Estado já possui, e deve ser eliminado.

Porque trocar o guichê por um aplicativo sem revisar a arquitetura de decisões, os padrões e as etapas redundantes apenas transfere o mesmo atrito para uma tela, e pode até criar atrito novo para cidadãos com menos acesso digital.

O ponto de partida é mapear a jornada completa do cidadão, identificando quem hoje é responsável por cada etapa, para então decidir quais etapas podem ser eliminadas, combinadas ou assumidas pelo próprio Estado em vez de exigidas do cidadão.

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Camila Barbosa
Renascence

Writing on how human behavior shapes the experiences brands deliver — at the intersection of behavioral economics and customer experience.

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